• Lilian Costa Pinto

Em Respeito à Vida

Atualizado: 26 de Dez de 2020


Olhando para este ano, marcado pela pandemia, vejo que algumas coisas doeram bastante: o afastamento necessário da família, dos amigos, dos colegas - a mudança de hábitos tão arraigados ligados aos lugares que faziam parte de nossa rotina, os passeios, as viagens, as atividades presenciais... Acho que todos nós sentimos algo parecido.


Neste ano tivemos que aprender novas formas de presença, de convivência, de troca de atenção e de carinho para tentar amenizar o distanciamento social. Aliás, vamos admitir, tivemos que aprender muito durante este ano. Tivemos que ser criativos, nos reinventar em muitos setores de nossas vidas, e isto, em cada fase da pandemia. Apesar de tudo, foram muitos os aprendizados. E parece que mais uma vez, diante da situação atual da pandemia, que piorou consideravelmente nas últimas semanas, nos colocamos diante de mais um desafio, e somos chamados a mais um aprendizado: atravessar a época que seria de muitas festas se tudo estivesse "normal".

Agora estamos sendo alertados que precisamos entender que ainda é importante continuar nos resguardando para um futuro muito próximo. Precisamos continuar preservando nossa saúde, e tentando cultivar nosso bem-estar de outra maneira, que não inclua por enquanto a intensidade da proximidade física. A convivência e a interação entre as pessoas neste momento tão especial das celebrações de final de ano - Natal, Ano Novo - infelizmente, representam um risco.

Parece não ser o momento de relaxar no autocuidado, e, pior, no "altercuidado" - o cuidado e o respeito que precisamos ter em relação à vida alheia, à saúde da família e dos amigos.

Este não parece ser o momento para desafiar as circunstâncias mais óbvias para evitar um contágio, que são o distanciamento social, o uso de máscaras - recomendações básicas dadas pelos especialistas da área. É opcional para muitos cumprir este mínimo de cuidado por mais um tempo, e, desta forma, evitar contribuir com uma disseminação ainda maior do vírus entre os seres humanos.


Imagino que muitos de nós já tivemos notícias de casos graves e de mortes ocorridas com pessoas conhecidas, amigos, familiares.


Mas por quê insistir em desafiar o que não precisa ser desafiado? Tenho certeza de que é possível segurar a ansiedade, nos conter e esperar mais um pouco para nos expormos, enquanto a vacina não está disponível para todos, e não encontraram um tratamento eficaz para a doença.


Fica aqui uma dica: as práticas que ando disponibilizando aqui, através do Harmonizarte, podem nos ajudar a lidar com isto, amenizando nossa ansiedade e nossa angústia. Visite a página sobre Atividades & Serviços do Harmonizarte para explorar estas possibilidades.


Nossa necessidade de buscar a satisfação imediata do desejo de encontrar as pessoas, de abraçar e rir junto, é um impulso natural. Mas podemos aderir a uma atitude responsável e madura, deixando para depois as demonstrações de amor e de amizade pelas pessoas, que envolvam a presença física e nossa habitual troca de afeto. Podemos usar o bom senso, segurar a frustração de não ter este desejo realizado de imediato, assim como somos obrigados a fazer em todas as circunstâncias da vida. Isto faz parte do amadurecimento, da vida adulta. (Mais difícil é explicar isto para uma criança, mas é possível também, e vai contribuir para o desenvolvimento dela. Já o jovem pode entender isto perfeitamente).


Olhando para este fenômeno, me lembro das ideias das pulsões de vida e de morte - Eros e Thanatos - noções da psicanálise que se referem a impulsos básicos que nos movem. Normalmente, a pulsão de vida é a força que chancela nossos atos. O fato de que queremos sobreviver, preservar a própria vida tem esta motivação - e se configura também como nossa necessidade mais básica. Diante da situação de exposição a que as pessoas estão se submetendo, fica a impressão de que é a pulsão de morte e de autodestruição que está prevalecendo em relação à pulsão de vida e de autopreservação.


Como estes impulsos instintivos podem se confundir tanto no momento atual?

Será que estamos abalando a pirâmide da hierarquia das necessidades humanas de Maslow, sacudindo sua base, onde estão assentadas nossas necessidades de segurança e de sobrevivência, e sobre as quais tudo o mais se estrutura em nossa vida?


Que jogo se esconde por trás dessas forças antagônicas que estão pondo em perigo os níveis mais básicos da nossa existência, o que pode levar a consequências desastrosas a curto prazo?


O fato é que algo nos move em direção à autopreservação, e algo põe em risco a mesma. E ao que parece, a sobrevivência está sendo desafiada pelo perigo numa situação coletiva inédita. Sigo refletindo sobre onde poderia encontrar alguma resposta para o dilema. Volto-me para um nível de questionamento mais existencial, o da busca de um sentido. Quem sabe ali alguma luz possa ajudar a explicar o fenômeno que temos vivido. Mas vamos pensar um pouco: será que a esta altura alguém está preocupado em buscar algum sentido para as coisas? Quem tem tempo para pensar no sentido da vida e refletir: para quê e por quê vivemos? Estas questões, por parecerem tão amplas, tão complexas, sempre deixamos de lado - e as entregamos aos filósofos.


Proponho um pequeno exercício:"filosofar" de um jeito diferente por alguns instantes. Vamos tentar desacelerar, fechando os olhos, respirando, e voltando o olhar para dentro de nós mesmos. Vamos focar a atenção em nosso interior, e, assim, de maneira leve, personalizar um pouco este questionamento. O que será que estamos buscando agora? O que nos motiva de verdade? O que nos anima a prosseguir? Pergunte-se a si mesmo: o que dá sentido à minha vida? Será que desta forma, conseguimos encontrar alguma luz? Se nos empenharmos em entender um pouco estas questões dentro de nós, podemos encontrar algumas respostas. E, prosseguindo, diante da incerteza de nossas respostas, convido você a adentrar uma outra dimensão da existência, e a refletir sobre a oportunidade única que representa o fato de estarmos vivos, de termos um corpo, uma mente, uma alma, vontade, autonomia... (Que bênção!)

Na maior parte do tempo, não abrimos espaço para este tipo de reflexão. Vamos vivendo, sem muita consciência, e sem dar muito valor à vida. Refiro-me aqui à vida em si: ao fato de se estar vivo.


Valorizar a vida - a minha, a sua, a de todas as pessoas - especialmente quando estamos ainda atravessando a dura realidade da pandemia - nos motiva a adotar atitudes responsáveis.


Pode ser que você não tenha medo diante da possibilidade de um contágio ser letal. Será? Nunca se sabe qual é a reação que cada organismo vai ter se infectado, independentemente da idade da pessoa. Apesar de ser triste pensar que uma pessoa pode não ter a perspectiva de ver muitos de seus sonhos realizados, de acompanhar o crescimento de filhos e netos, pode ser que para muitas pessoas, isto não seja motivo suficiente para repensar os cuidados que se deve ter agora. É difícil acreditar nisto, mas pode ser. Ver sua vida encurtada repentinamente por um contágio ao qual você não sabia que estava exposto, é ruim, mas exime você de uma parte da carga de responsabilidade disso ter acontecido. Mas, em se tratando de uma escolha pessoal de se "expor"- por qualquer motivo que não seja o de estar na linha de frente dos hospitais, tentando salvar vidas - fica mais difícil de entender.


Convido você a refletir um pouco. Será que curtir os bons momentos, divertindo-se com os amigos e com a família, comer, beber, rir, esquecendo que estamos em plena pandemia, é o melhor a se fazer agora? Provavelmente não. Se desejamos um futuro seguro para nós e para estas pessoas, onde poderemos estar todos juntos, como antes, é mais prudente que isto seja adiado.


E se ainda não encontramos uma razão forte para nos empenharmos firmemente para conter este vírus, para evitar exposição a ele, por motivos afetivos, emocionais ou existenciais, proponho que consideremos o seguinte:

Vamos pensar na necessidade de valorizar conscientemente a vida e o propósito de virmos ao mundo. Trata-se de valorizar a oportunidade que nos foi dada para evoluirmos como pessoas, para aprendermos, para nos aperfeiçoarmos como seres humanos.

A experiência do desenvolvimento da pessoa humana passa por nascer, viver, aprender, expandir a consciência, avançar na escola que a vida é. Dar valor ao tempo de vida que podemos ter pela frente, e que os outros podem ter pela frente, é motivo suficiente para nos fazer engajar em atitudes de autocuidado e de cuidado para com as pessoas, neste momento de crise que todos estamos vivendo.

E aí reside mais uma justificativa para nos precavermos contra a doença Covid-19, que está circulando em todos os meios, em todas as cidades e em todos os países, sem distinção: para se dar a chance, através do autocuidado, de viver o máximo de tempo que pudermos nesta escola da vida, e garantir aos outros, através do "altercuidado," a mesma chance.


Acredito que não queremos abreviar nossa vida, e que desejamos o mesmo em relação à vida dos outros. Portanto, celebrar a vida, neste momento, não significa reunir-se com as pessoas que amamos, festejar, trocar abraços, expressar carinho, como sempre fizemos. Pelo contrário. Celebrar a vida agora é dar a oportunidade à sua continuidade, para que cada ser humano possa aproveitar ao máximo, temporalmente falando, o sopro de vida dentro de si. Para que cada um de nós possa se adiantar na escola da vida, e avançar em direção a mais oportunidades de auto-realização em todos os sentidos: como pessoas, como almas, como coletividade. Precaver-se agora é dar-se a chance, através do autocuidado, de viver o máximo de tempo que pudermos, não porque queremos ficar atados à experiência humana, mas porque, como pessoas, temos o compromisso com o autoaperfeiçoamento. E o mesmo se aplica em relação aos outros, através do altercuidado - nossa responsabilidade - ao evitarmos pôr em risco suas vidas. Acredito que todos reconhecemos a necessidade de dar valor à vida, de encará-la como uma escola de oportunidades, de evolução, de aperfeiçoamento. Preservar a própria vida e a dos outros, dar-lhes a chance, e a nós mesmos, de continuarmos aprendendo, vivendo, é uma justificativa e tanto para continuarmos a ter cuidado. Abrir mão agora de alguns momentos de felicidade com amigos e com a família, representa um nada diante dos muitos que já vivemos, ano após ano, e de outros muitos que virão em breve, se nos preservarmos. É uma questão de paciência, de respeito a si, ao outro, ao propósito e ao significado da vida. Vamos respeitar a vida. Vamos tentar evitar um contágio ainda maior. Se formos nos reunir presencialmente com alguns entes queridos, vamos fazê-lo da maneira responsável. Mas, este ano, dê preferência a outros tipos de encontros. Para termos a sensação de estarmos próximos uns dos outros, dispomos de muitos recursos, de formas de comunicação que ajudam a substituir a presença física e o convívio real com as pessoas, a minimizar as saudades e o desejo de estarmos juntos. Pode ser uma experiência diferente, mas também muito gratificante, pois é uma forma de valorizar a vida do outro e a nossa própria, demonstrando amor e solidariedade num momento único.


Pense nisso, em respeito à vida de todos e em respeito à Vida que nos habita!


Desejando a todos o melhor: muitas realizações, muita saúde, paz e harmonia!


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